Emprego, Qualificação e Empregabilidade. Quem se Responsabiliza?

1 - Emprego

Pode parecer mais um artigo sobre o tema, assim como muitos outros, mas certamente não é. Muito tem se falado nos últimos tempos, sobre a defasagem de qualificação do trabalhador brasileiro, mais recentemente parece que o risco aumentou com a terminologia “fabricas 4.0”, para qual aparentemente ninguém está preparado.

Afinal, quem é este trabalhador?

O operador de produção? O motoboy? O atendente de telemarketing? O supervisor de produção? Talvez o recrutador de pessoal? O gerente bancário? Quem sabe o professor? Afinal o risco está para todos, senão vejamos:

  • Operador de produção: máquinas automáticas, que não requerem mais sua presença;
  • Motoboy: agora utilizaremos drones para as entregas para que elas sejam mais rápidas;
  • Operador de telemarketing: recorde que em seus últimos atendimentos, boa parte já foi feito por um robô;
  • Supervisor de produção: se a máquina faz o registro automaticamente, não há operador para se administrar;
  • Recrutador de pessoal: plataformas com diferentes filtros fazem a análise anteriormente feita por uma pessoa;
  • Gerente bancário: se você tiver tempo e habilidade, alguma ferramenta de inteligência artificial poderá fazer qualquer simulação;
  • Professor: a proliferação de cursos em EAD é a prova disso.

Perante isto, podemos concluir que estes empregos acabaram, será isto verdade? Não totalmente, se considerarmos o artigo escrito pelo prof. José Pastore, ao jornal O Estado de São Paulo, em julho de 2014, onde ele dizia:

“Se, de um lado, o novo mundo promete conforto e eficiência, de outro, os seres humanos se preocupam com seus empregos. Isso já ocorreu no passado. A máquina a vapor incorporada aos teares ingleses ameaçou o trabalho dos tecelões. O motor elétrico prometeu acabar com os artesãos. O telefone desafiou o reinado do telégrafo. O cinema acabaria com o teatro. E a televisão daria um fim ao cinema.

Nada disso aconteceu porque as tecnologias aumentaram a eficiência dos negócios, geraram mais lucros, promoveram investimentos, criaram empregos e melhoraram a renda dos trabalhadores. Será que assim será o novo mundo? É uma incógnita.”

Partindo da incógnita apontada, é possível afirmar que os empregos continuarão existindo, mas com outro perfil, com outra qualificação; afinal quem acendia a iluminação pública, a base de querosene em vias públicas, não existe mais, em contrapartida especialistas na produção de lâmpadas mais eficientes e geração de energia limpa poderão ter garantia de emprego, ainda por muito tempo, sendo em atividades de pesquisa ou operacionais.

Desta forma, podemos identificar a necessidade da contínua qualificação de qualquer tipo de profissional.

A pergunta que fica é: de quem é a responsabilidade por esta qualificação? Quem consegue entender qual a qualificação necessária para o futuro? Trabalhador, empresas ou governo?

A resposta talvez seja: de todos!

  • O trabalhador: que pela falta de aperfeiçoamento poderá perder seu emprego;
  • As empresas: que correm o risco de perda de sua competitividade, por não ter investido na qualificação de sua mão de obra;
  • O Estado: que, com a perda da competividade das empresas deixará de gerar riqueza e criará dependência em relação aos demais países.

2 - Qualificação

Como sair deste círculo vicioso?

Em reportagem publicada na Revista Exame, edição 1216, de agosto de 2020, a autora Luciana Antonini Ribeiro, afirma:

“Um caso particularmente preocupante é a combinação de um alto desemprego com a digitalização acelerada de nossa economia. Parte desse contingente não conseguirá se reempregar por pura falta de habilidade digital — é o drama dos não empregáveis.

E um caminho é o movimento coordenado de governos, instituições de ensino e setor privado para elaborar um plano urgente e prático que alavanque o potencial de milhões de brasileiros: repensar a qualificação e a requalificação profissional é fundamental para o futuro de um Brasil mais inclusivo.”

Se pensarmos em um trabalhador que foi disciplinado nos últimos tempos a cumprir com suas responsabilidades, cobrado para que a qualidade do produto ou serviço estivesse dentro dos padrões estabelecidos, convivendo com a informação sobre o aumento do desemprego, podemos levantar a dúvida se com o salário contado sobraria para ele, vontade e condição financeira para obter uma melhor qualificação, ou mesmo visão se haveria a necessidade disto, e se houver, qual a qualificação adequada para atender uma necessidade futura.

As empresas por sua vez, quando determinam em suas matrizes de competências estão pensando nas necessidades atuais ou futuras? Quais as competências necessárias para a operação dos equipamentos ou processos que possuo, ou para as tecnologias futuras?

Pensam na melhora tecnológica para aumento da produtividade, mas nem sempre na qualificação de sua mão de obra, que poderá ser mantida em seu próprio quadro funcional. A qualificação desta mão de obra, agora dispensável, normalmente ocorre com o benefício de uma orientação de Gestão de Carreira, no momento de sua demissão, quando já é tarde, afinal o emprego está perdido e consequentemente sua empregabilidade deixa de existir.

Bem, falamos de emprego, com algumas funções já extintas, outras em extinção; podemos citar a realidade do auto atendimento para pagamento em supermercados, o que será dos atuais operadores de caixa?

Também comentamos da necessidade de qualificação, que passa pela iniciativa do próprio trabalhador, das empresas, mas também dos governos, cujo exemplo abordaremos mais à frente.

Tudo isto para que o trabalhador em qualquer nível, operacional ou gestão, possa manter sua empregabilidade para funções que existam, ou venham a existir. Mas o que é empregabilidade?

- Empregabilidade

Como manter e de quem é a responsabilidade pelo seu desenvolvimento?

A saída dependerá da ação dos 3 atores – Governo, Empresas e Representantes dos trabalhadores – afinal todos perdem, e autores e ações apontam que a parte mais importante neste processo está nas mãos, não só do trabalhador, mas principalmente das empresas e governos.

Porém, antes disso é necessário que se defina, o que é empregabilidade:

“conjunto de conhecimentos, habilidades e comportamentos que tornam um executivo ou um profissional importante para a sua organização e para toda e qualquer outra”. Bueno (1996, p.45)

O conceito então se relaciona com a capacidade profissional e com as aptidões para o mercado de trabalho, neste caso em constante mudança; para garantir a sua capacidade de empregabilidade no mercado de trabalho é preciso que o profissional esteja atento às demandas de sua área de atuação, ou em relação a área que gostaria de atuar, temas estes já apontados anteriormente.

Pois bem, talvez este seja o grande desafio. Como fazer com que os trabalhadores mantenham seu nível de empregabilidade, permitindo assim eliminar ou reduzir a escassez de mão de obra qualificada, e consequentemente a perda de competitividade para as empresas e para o país, considerando-se ainda que, a desigualdade para obtenção da qualificação é notória.

Isto pode ser fundamentado, conforme abaixo:

“Daí a importância das ações de governos e empresas no sentido de implementar a empregabilidade. Programas especiais de formação e treinamento são essenciais para ampliar os horizontes dos trabalhadores de todos os níveis. Desta forma, eles têm maior possibilidade de encontrar outras ocupações quando forem liberados de suas atividades atuais devido à aplicação de novas tecnologias, a exemplo da automação industrial.

É um investimento necessário nos países em desenvolvimento, em que o acesso à informação é fortemente condicionado por fatores sócio econômicos” Minarelli(1995, p 37)

Pode parecer ultrapassada a afirmação de Minarelli, já que foi publicada em 1995, também pode denotar transferir a responsabilidade somente para um dos 3 atores, mas isto não é verdade, o tema é extremamente atual e o exemplo vem da União Europeia:

A União Europeia, por sua vez, construiu uma agenda positiva para estimular a chamada competitividade sustentável. Considera direito universal o acesso à educação de qualidade e ao treinamento correto.

São pilares dessa iniciativa:

  • I - a definição de objetivos claros e mensuráveis, que garantam as habilidades que levem a um emprego;
  • II - a construção de um ambiente de estímulo ao aprendizado constante; e, por fim,
  • III - o fomento ao empreendedorismo, ao pensamento crítico, à cooperação, e ao ensino Stem (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), especialmente para as mulheres. (Revista Exame, edição 1216)

Desta maneira é fundamental que não só o trabalhador tenha consciência da necessidade de atualização profissional, e criação de novas competências de forma a entender novas necessidades de mercado, fato este comprovado por estudo realizado pelo Escritório de Carreiras da USP, que aponta:

“Em vez de uma formação padrão para trabalhar em cada uma das dez divisões mapeadas, a pesquisa indica que o trabalho do futuro passa pela combinação de conhecimentos.

No estudo, a palavra profissão não aparece. Carreira é a sequência de experiências pessoais de trabalho ao longo do tempo. Neste cenário, saber transitar entre diferentes setores e desenvolver habilidades que, a princípio, nada tinham a ver com seu ofício serão competências indispensáveis ao trabalhador”.

Talita Nascimento (O Estado de São Paulo, janeiro 2020)

O que fazer? Qual o tempo para que isto ocorra? Temos que usar a afirmação de 2014 do professor José Pastore: É uma incógnita!

Não há tempo a perder, pois a chamada Fábrica 4.0, ou qualquer outra tecnologia que venha a ser desenvolvida, certamente determinará novas necessidades de qualificação de todos os trabalhadores, e eles assim como todos os atores precisam estar preparados.

Por Antonio Olegário Blanco CAVA

Bibliografia
BUENO, José Hamilton – Autodesenvolvimento para a empregabilidade: sobrevivendo e prosperando numa sociedade sem empregos – São Paulo: Ltr, 1996. P. 255. MINARELLI, José A – Empregabilidade: o caminho das pedras – São Paulo: Ed Gente, 1995. NASCIMENTO, Talita – Experiência valerá mais que a formação na próxima década – São Paulo: jornal O Estado de São Paulo, 2020. PASTORE, José – Impacto das tecnologias sobre o emprego – São Paulo: jornal O Estado de São Paulo, 2014. RIBEIRO, Luciana A. – Os não empregáveis – São Paulo: Revista Exame, ed 1216, agosto 2020.